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[FONACATE NA MÍDIA]» Conjuntura» Falta liberdade para investigar autoridades

Com informações de: Correio Braziliense

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Denúncia do presidente da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Unafisco), Kleber Cabral, pôs em xeque a liberdade de profissionais do Fisco para investigar políticos e autoridades supostamente envolvidas em crimes tributários. Após questionar o controle e a restrição nas apurações, Cabral foi interpelado judicialmente pelo secretário do órgão, Jorge Rachid, e submetido a processo de apuração ética, acusado de deslealdade e de causar dano à imagem da instituição.
 
Segundo Cabral, o objetivo da revelação sobre os caminhos equivocados dos gestores da Receita foi abrir um debate e indicar formas de enfrentar o problema. Mesmo com as acusações de Rachid e da Comissão de Ética, consideradas por ele infundadas, o presidente da Unafisco afirma que não desistirá. “Não vamos recuar. Continuaremos com altivez e severidade, fazendo o enfrentamento. A discussão que veio à tona pode ser interpretada como uma recomendação para aprofundarmos os estudos. Não há razão para a Receita fazer monitoramento indiscriminado do auditor, e não de quem comete irregularidades”.
 
“Há anos, celebridades são tratadas com neutralidade e leniência”, disse. Segundo Cabral, na lista dos privilegiados pelo sigilo estão deputados, senadores, ministros, secretários, presidentes e diretores de estatais, juízes e procuradores, cuja posição estratégica no Estado os torna, em tese, potencialmente mais propícios a crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. “Mesmo assim, por longos anos, os radares da Receita não detectaram enormes transferências de recursos, ocultações de patrimônio, utilização de empresas de fachada, que só vieram à tona com a Operação Lava-Jato”, afirmou.
 
Incômodo
De acordo com o presidente da Unafisco, duas acusações incomodaram Rachid: o acobertamento dos CPFs e CNPJs dos contribuintes que aderiram à Lei de Repatriação — o que abre brechas para a lavagem de dinheiro, uma vez que não há exigência de se provar a origem dos recursos no exterior — e a lista das Pessoas Politicamente Expostas (PPE). Até mesmo auditores que participam da força tarefa da Lava-Jato têm dificuldade de conhecer os nomes envolvidos. Se a PPE é acessada, imediatamente o delegado ou superintendente da área ou o próprio secretário da Receita é alertado.

Por meio de nota, a Receita informou que o órgão, “por força do sigilo fiscal, trabalha em silêncio, diferentemente do MPF e da PF, que não têm essas amarras”. As autuações na Operação Lava-Jato já totalizam mais de R$ 12 bilhões, destacou a nota. Desse total, R$ 7 bilhões em créditos tributários. Mas, antes, a fiscalização já atuava nos casos que causaram prejuízo à Petrobras, “com autuações de R$ 4,72 bilhões no caso Schain, relativo à produção de plataformas”.

Informou também que, na Lava Jato, “já analisou 7.516 CNPJs e 6.072 CPFs, e 3,5 milhões de páginas de documentos judiciais e extrajudiciais”. Investigou 58,7 mil pessoas até o momento, foram instaurados 1.686 procedimentos fiscais, dos quais 1.008 estão em andamento e 678 foram encerrados.

Segundo o Fisco, já foram encaminhadas 67 representações fiscais para fins penais ao Ministério Público Federal e outras 140 estão sendo preparadas para envio em 2018. “Por fim, aproximadamente 800 procedimentos de fiscalização deverão ser encerrados em 2017, com expectativa de autuações de mais de R$ 4 bilhões”, declarou o órgão, sem especificar os motivos que levam o secretário Jorge Rachid a atuar contra o auditor Kleber Cabral.

 

CONJUNTURA » Apoio de entidades de classe

 

Entidades representativas de servidores demonstraram perplexidade e indignação com o cerceamento à livre manifestação do presidente da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Unafisco), Kleber Cabral, garantida pela Constituição. O Sindicato Nacional dos Auditores da Receita (Sindifisco Nacional) declarou, em nota, que nenhum dirigente deve se sentir constrangido ou intimidado em decorrência da expressão de seus pensamentos.
 
“De fato, soa estranho a manutenção de lista de pessoas protegidas, num momento em que, sabe-se, as investigações dos auditores têm subsidiado importantes operações policiais contra a corrupção, como a Lava-Jato, a Zelotes e a Calicute. Para o combate à corrupção e à lavagem de dinheiro, é fundamental que os auditores estejam protegidos de qualquer tipo de censura ou retaliação quando em cumprimento da sua atividade fiscalizatória”, destacou o Sindifisco.
 
O presidente do Sindifisco-DF, Waltoedson Dourado, igualmente apoiou as denúncias de Cabral. “Ele apenas ressaltou a capacidade limitada de cumprirmos nossa atribuição. E que esses limites vão contra o interesse da sociedade. As declarações em nada ferem a Receita. Estamos fazendo um abaixo-assinado em favor do Cabral e contra a retaliação que ele recebeu”, relatou Dourado. Ele revelou que não é a primeira vez que o secretário Rachid age dessa forma. O sindicato já entrou com vários processos contra ele pelo mesmo motivo.
 
Democracia
Rudinei Marques, presidente do Fórum Nacional Permanente da Carreiras de Estado (Fonacate), destacou que fatos como esses não podem acontecer em uma democracia. “O Fonacate se solidariza com o presidente da Unafisco e vai estudar medidas jurídicas para protegê-lo e garantir o direito de voz”, declarou.
 
Waltoedson Dourado, do Sindifisco-DF, lembra que existem controles internos que impedem abuso por parte dos auditores fiscais. Em 2016, por exemplo, foram aplicadas 78 penalidades a servidores do Fisco. Segundo ele, 66 foram expulsórias — 44, por corrupção. “A Corregedoria da Receita tem equipe treinada para comprovação de excessos ou ilícitos penais. É uma das mais eficientes do mundo”, disse Dourado. Além disso, externamente, há controle do Tribunal de Contas da União (TCU), da Controladoria-Geral da União (CGU) e do Ministério Público Federal (MPF), relatou.
 
Para Kleber Cabral, a discussão não é sobre poder. “Todos os acessos ao sistema são controlados. E deve ser mesmo dessa forma. Agora o que se quer é uma fiscalização efetiva para qualquer um de nós, inclusive para as celebridades”, defendeu-se Cabral.
 

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